Para um fã de basquete, não há nada mais fascinante do que o famoso toco de LeBron James em Andre Iguodala durante o Jogo 7 das Finais de 2016. Ou será que existe?

Quem participa de grupos de discussão sobre a NBA frequentemente se depara com frases como “O time X deveria trocar o fulano na offseason” ou “O time Y deveria iniciar uma reconstrução”. Mas o que isso significa? Embora essas conversas sejam extremamente interessantes, elas podem ser excludentes para aqueles que não estão familiarizados com a terminologia e os mecanismos que tornam a NBA a melhor liga esportiva do planeta (na minha opinião, mas quem discordar está errado).

Por isso, apresento um “Guia da NBA para iniciantes”, com o objetivo de incluir ao menos uma pessoa nesse “clubinho”. O intuito aqui não é explicar o basquete em si, nem falar de tática ou história, mas dar uma ideia geral sobre como funciona a liga e o “jogo além do jogo”, que acontece fora das quadras.


Quem é o dono da NBA? Quem toma as decisões?

A resposta para a primeira pergunta é simples: os bilionários donos das 30 franquias. Cada franquia detém uma cota correspondente a 1/30 da NBA, ou seja, todos são sócios.

Por que isso importa? Porque essa estrutura altera completamente o sistema de incentivos, se comparado a um jogo puramente competitivo. Como os donos dos 30 times são sócios, eles ganham mais dinheiro com maior audiência, vendas de ingressos, camisas e afins da liga como um todo. Por isso, é do interesse de todos que a liga se mantenha competitiva, já que isso atrai mais audiência do que uma liga dominada por duas ou três equipes.

Comissário Adam Silver

Os donos das 30 equipes elegem um comissário para tomar as decisões que visam garantir essa competitividade e, consequentemente, aumentar os lucros. O comissário atual da NBA é Adam Silver, que ocupa o cargo desde 2014 e foi responsável por criar a Copa NBA e o Play-In, dentre outras iniciativas.

Vale destacar que os lucros da liga também são fundamentais para os salários dos jogadores. O CBA (Collective Bargaining Agreement), acordo entre donos de equipes e jogadores, determina que em torno de 50% da receita da liga seja destinada aos jogadores, na forma de salários. O teto salarial (que será explicado adiante) é calculado a partir desse número. Uma liga mais competitiva, portanto, não beneficia apenas os donos, mas também os jogadores.


Como a temporada é disputada?

Cada uma das 30 equipes da NBA disputa um total de 82 partidas durante a temporada regular, que vai de outubro a abril. Todas as equipes se enfrentam, mas o número de confrontos entre cada par de times varia, devido a diversos fatores. Após as 82 rodadas, a classificação é definida e a pós-temporada tem início.

É importante notar que, embora as trinta equipes se enfrentem durante a temporada regular, há dois campeonatos ocorrendo em paralelo: as Conferências Leste e Oeste. Na pós-temporada, as equipes enfrentam-se dentro dessas conferências até que se determine um vencedor. Os campeões das conferências Leste e Oeste, então, se enfrentam na grande final.

Usando como exemplo os maiores vencedores da história da liga, temos o Boston Celtics no Leste e o Los Angeles Lakers no Oeste. Embora ambos disputem os mesmos 82 jogos da temporada regular e enfrentem adversários das duas conferências, só poderão se enfrentar na final se cada um vencer sua conferência.

Na pós-temporada, a classificação de cada conferência é dividida em três zonas:

  1. Primeiro ao sexto colocado: vaga garantida nos playoffs.
  2. Sétimo ao décimo colocado: disputam o Play-In para definir os últimos dois classificados.
  3. Décimo primeiro ao décimo quinto colocado: eliminados da temporada (estão de férias).

O Play-In funciona da seguinte maneira:

A partir daí, os playoffs começam com os oito classificados em cada conferência. São confrontos eliminatórios disputados em melhor de sete partidas, até que se defina o campeão do Oeste e o campeão do Leste, que se enfrentam na grande final, também em melhor de sete jogos.

Formato de disputa da pós-temporada.

E depois da temporada?

As finais da NBA acontecem em junho, e a temporada seguinte começa só em outubro. Isso significa quatro meses de descanso para os fãs? DEFINITIVAMENTE NÃO!

Entre as temporadas temos o período chamado off-season, que é talvez o mais interessante quando falamos do “jogo além do jogo”. Durante esse período, ocorrem diversas movimentações nas equipes, como contratações, trocas e o Draft (que será explicado abaixo). Ver as movimentações do seu time e projetar a próxima temporada é, para alguns, tão fascinante quanto acompanhar os jogos em si. Afinal, ao contrário do seu time real, o time hipotético nunca te decepciona.


Como os times se movimentam?

A estrutura da NBA, com seus times sendo tanto competidores quanto sócios, cria um conjunto de regras que promove o equilíbrio, como já mencionado. Isso significa que, ao contrário de outros esportes, não basta o dono mais rico abrir os cofres e contratar os melhores jogadores para ter o melhor time.

A NBA possui um sistema de longo prazo, onde decisões tomadas hoje podem impactar as chances de uma equipe ser competitiva por muitos anos.

O principal alicerce dessa estrutura é o teto salarial. Todas as equipes têm um valor pré-determinado para gastar com os salários dos jogadores que formam seus elencos. Em 2025, esse valor é próximo de 141 milhões de dólares anuais. Embora existam mecanismos e exceções que permitem que os times ultrapassem esse valor, para este guia, isso não será considerado.

De maneira simplificada, as grandes estrelas da NBA recebem salários elevados (que podem chegar a 40% do teto salarial em algumas ocasiões), o que torna impossível para os times terem vários jogadores desse nível simultaneamente. Por exemplo, mesmo que Joe Lacob, dono do Golden State Warriors, quisesse gastar uma fortuna, ele não poderia contratar LeBron James, Giannis Antetokounmpo e Nikola Jokić para jogar ao lado de Steph Curry, pois os salários somados ultrapassariam o teto.


Como os times podem contratar jogadores?

Existem três formas pelas quais os times podem contratar jogadores: Contratações de agentes livres, trocas e o Draft.

Contratação de agentes livres:

Os contratos na NBA são assinados por um período de 1 a 5 anos, com o valor salarial anual definido entre as duas partes no momento da assinatura. Após a assinatura, o vínculo é estabelecido por esse período, e o valor do salário entra no teto salarial da equipe.

Enquanto o contrato estiver em vigor, o jogador não pode decidir mudar de time. Contudo, quando o contrato expira, o jogador se torna um Agente Livre, podendo negociar com qualquer equipe interessada. Vale lembrar que as equipes só podem oferecer contratos que se encaixem dentro do seu teto salarial. Assim, um time que já tenha atingido o limite salarial não poderá contratar um agente livre.

Trocas:

Como vimos, ao assinar um contrato, o jogador abre mão do direito de escolher sua equipe enquanto o vínculo estiver vigente. Porém, isso não significa que ele jogará na mesma equipe por todo o contrato, já que os times podem realizar trocas de jogadores.

A troca mais impactante da história recente (ou talvez de toda a história) foi o polêmico negócio entre Lakers e Mavericks, que levou Luka Dončić para Los Angeles e Anthony Davis para Dallas. Embora tenha sido um movimento surpreendente e contestável para a franquia texana, a diretoria acreditava que a troca seria vantajosa para suas pretensões (estavam errados).

Importante frisar que, para uma troca ocorrer, os dois times devem respeitar as regras salariais. Ou seja, as equipes não podem ultrapassar o teto salarial como resultado da troca.*

Luka no Lakers ainda parece montagem, mas é real

* Existem alguns mecanismos pelos quais os times podem operar acima do teto, e geralmente o fazem. Há restrições em decorrência disso, mas não vem ao caso detalhar neste momento. A explicação imaginando o teto “rígido” é uma simplificação necessária para este texto.

Draft:

O Draft é, sem dúvida, o “Natal” da NBA. É o momento de esperança por um futuro melhor, a partir de um presente novo do “Papai Noel”. Neste caso, o presente é um jovem jogador, geralmente entre 19 e 23 anos, que será novato na NBA no ano seguinte.

Cerimônia do Draft

O Draft é a principal forma de acesso à NBA para os jovens talentos, que vêm principalmente do basquete universitário e de ligas profissionais de outros países. Todo ano, em junho (pouco após as finais), há uma cerimônia na qual os General Managers das 30 franquias escolhem seus novos jogadores no melhor estilo “aula de educação física”, com os prospectos a uma vaga na liga.

Naturalmente, o time que tem o direito de escolher primeiro tem uma vantagem no processo, e assim por diante. Aqui, retomamos a importância para a liga de manter a competitividade, pois as primeiras escolhas do Draft são feitas pelas equipes com as piores campanhas do ano anterior. Ou seja, os times com desempenho ruim pegam os melhores jogadores novatos, em um sistema que visa equilibrar as forças ao longo do tempo.

Às vezes, a esperança depositada nos novatos é tão grande que as cidades comemoram a chegada desses prospectos com grandes festas. Recentemente, isso aconteceu em San Antonio, que teve a primeira escolha e, com ela, a chance de selecionar o fenômeno francês Victor Wembanyama, cujo talento já era reconhecido antes de chegar à NBA.

Vale destacar que a ordem do Draft não é exatamente a inversa da classificação da temporada anterior. Para evitar que times percam de propósito com o objetivo de garantir a melhor escolha no ano seguinte, a liga instituiu uma loteria que define as quatro primeiras posições. As 14 equipes que não se classificaram para os playoffs participam desse sorteio, que é feito literalmente com bolinhas de pingue-pongue. As três equipes com as piores campanhas têm 14% de chance de ficar com a primeira escolha, e à medida que a classificação melhora, as chances diminuem. Após o sorteio das quatro primeiras escolhas, as demais seguem a ordem inversa da classificação da temporada anterior.

O Draft ocorre em duas rodadas, totalizando 60 escolhas (duas por equipe).


O Jogo Longo

Finalmente chegamos ao aspecto mais fascinante da estrutura da NBA, na minha humilde opinião: o “jogo longo”. Pela estrutura apresentada até aqui, que visa o equilíbrio, existe na NBA um jogo que vai além do que é jogado em quadra e da temporada vigente.

Ao analisarmos as franquias, fazemos uma distinção entre aquelas com chances reais de título e as mais fracas, devido aos elencos. Essa divisão também leva a diferentes estratégias. As equipes no topo da tabela, com grandes estrelas e times competitivos, buscam reforços para alcançar a glória, mesmo com as restrições impostas pelas regras. Outras equipes, por outro lado, trabalham nos bastidores para se fortalecerem para temporadas futuras, sabendo que não possuem chances imediatas.

Um exemplo prático aconteceu nesta temporada, quando o Brooklyn Nets trocou o armador alemão veterano Dennis Schröder, de 31 anos, para o Golden State Warriors em troca de De’Anthony Melton (lesionado durante toda a temporada) e três escolhas futuras de Draft de segunda rodada.

Schröder estava fazendo uma ótima temporada pelo Brooklyn, mas, como ele estava no último ano de contrato e a equipe não tinha aspirações reais, a troca fez sentido. Mesmo que o time tivesse os melhores desempenhos individuais possíveis, ele não seria forte o suficiente para competir com Boston, Cleveland e outros times da Conferência Leste. O Golden State Warriors, por outro lado, tinha aspirações mais altas e via em Schröder uma peça que poderia contribuir para seu sucesso.

Do ponto de vista do Brooklyn, a troca era uma forma de garantir que não perderiam Schröder de graça ao final da temporada. Assim, ao trocar um jogador veterano, mas não fundamental para o sucesso imediato, por escolhas de Draft, a franquia está trocando “presente por futuro” – a chance de os jovens vindos dessas escolhas se tornarem parte de um time mais forte um dia.

Há ainda uma camada extra nesse tipo de movimento. Ao trocar um bom jogador veterano por escolhas de Draft futuras, o Brooklyn também deliberadamente enfraqueceu seu time na temporada vigente. Com isso, a tendência é que perca posições na tabela e, consequentemente, tenha chances maiores de garantir as primeiras escolhas no próximo Draft.

O Brooklyn Nets está, assim, jogando o “jogo longo”, pensando no time de 5 a 10 anos à frente, ao invés de tentar forçar uma competitividade imediata. Isso é o que chamamos de “reconstrução”, um processo que todas as franquias passam em algum momento de sua trajetória.

Outro exemplo mais famoso deste tipo de movimento também envolve o Brooklyn Nets. Em 2013 a franquia de Nova York tentou fazer o contrário, de adicionar grandes estrelas em trocas de escolhas de ativos futuros. Adquiriram então os já veteranos Kevin Garnett e Paul Pierce do Boston Celtics, em troca de escolhas futuras de draft. A troca acabou não dando certo para o Nets, pois os jogadores não conseguiram entregar o mesmo nível de atuação de outrora. O Celtics, por outro lado, escolheu nada menos que Jaylen Brown e Jayson Tatum* com as escolhas de draft adquiridas nesse negócio, e com isso construiu o time campeão de hoje.

*Tatum na verdade foi escolhido em uma troca de escolhas no draft de 2017, na qual o Celtics trocou a escolha 1, que tinham adquirido do Brooklyn, pela 3, e ali selecionou o jogador.


Conclusão

Existem muitas formas de aproveitar a NBA. Não há nada de errado em ligar a TV, assistir a um jogo sem conhecer os nomes dos jogadores e se impressionar com a habilidade e a capacidade física do mais alto nível do basquete internacional.

O objetivo deste guia, no entanto, foi apresentar um pouco além do que vemos na tela, para quem, como eu, se interessa por essa camada extra do jogo. Espero que este texto tenha despertado essa curiosidade em você, amigo leitor!

Caso tenha dúvidas sobre o que foi apresentado ou qualquer outra questão relacionada ao funcionamento da liga, não hesite em entrar em contato conosco pelo e-mail, redes sociais ou até mesmo nos comentários abaixo.

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